José incomoda muita gente

por José San Martín Camiña Neto

José é um ramo frutífero junto à fonte, cujos galhos se estendem sobre o muro”. (Gn 49.22)

Como tipo de Cristo, José é também o emblema de uma vida frutífera em meio a qualquer dificuldade. O ódio de seus irmãos não impediu que fosse um filho obediente, correto e, por isso, amado pelo seu pai. Mesmo a condição de escravo num país estrangeiro não foi barreira ao jovem hebreu. Tal qual o homem fiel, retratado no Salmo 1, ele tornava fecundo tudo quanto chegasse às suas mãos. E a calúnia? Será que uma covardia, uma mentira sem tamanho, capaz de destruir sua reputação, conseguiu desanimá-lo? Não. Aquele que está comprometido com Deus supera o golpe mais baixo, vindo de onde e quem quer que seja. Assim, José, até na prisão, deu frutos.

Frutos na vida

Há muitas desculpas, até certo ponto convincentes, para justificarmos nossa esterilidade espiritual. Sempre haverá alguém falso, mau, ímpio no caminho, impedindo nossos frutos. E na verdade, há. Mas com a história de José, Deus quer mostrar que é possível vencer a hipocrisia, a mediocridade de “irmãos”, “amigos”, “pastores”, “patrões”, “parentes” e outros. José possuía um segredo revelado pelo Espírito Santo na boca do seu pai, Israel, enquanto este ministrava-lhe a bênção: “Ramo ligado à fonte…”.

Não se pode ser frutífero sem o novo nascimento, sem conversão, sem revelação de Jesus cristo, sem a experiência pessoal com Deus. Mais que seguidores da doutrina da Bíblia. Mais que religião que preenche este e aquele requisito. Nada de mero exterior, aparência, “sepulcro caiado”, e sim Vida Nova sem as coisas velhas. Vida abundante sem murmuração, língua mentirosa. Nada de humildade planejada, mecânica, submissão profissional e interesseira, mas sinceridade, simplicidade e compromisso. Fora disso, nossa crença é apenas iniquidade e perda de tempo.

Frutos na morte

É nos momentos negativos que são conhecidos aqueles que são ligados à Fonte. Não são super-homens ou supermulheres. Não são privilegiados, melhores que eu e você. Nesse sentido, Thiago lembra-nos de Elias, um “homem sujeito às mesmas paixões que nós”, cuja oração retinha ou liberava a chuva (Tg 5.11).

Francis Schaeffer, o grande teólogo francês, não deixou de falar das boas novas da salvação a médicos, enfermeiras e funcionários do hospital em que aguardava a morte. Seu estado terminal, causado pelo câncer, não tornou seu rosto carrancudo, tampouco sua língua lamentadora. Ao partir aquele bravo servo de Deus, todo o hospital lamentou sua perda, pois nunca haviam convivido com um doente tal qual aquele. Schaeffer, como José, deu fruto em condições aparentemente impossíveis.

Sérgio Pimenta, um dos maiores compositores da música evangélica brasileira, também tombou precocemente consumido pelo câncer. Ao longo de sua curta carreira, deixou claro o alvo do seu viver: “Lá, está  o meu tesouro/Lá, onde não há choro/Onde todos cantaremos juntos/Hinos de louvor”, ou  “O que me faz viver é tão intenso/Que até me perco se explicar/O que me faz viver é tão profundo/Mas me vê no mundo no singular… /O que me faz viver, eu sei, é isto:/De Jesus, o Cristo, o amar!

Muralhas transpostas

Há um segundo aspecto crucial na revelação divina através das palavras abençoadoras de Israel ao amado José: “…e os seus galhos se estendem sobre o muro”. Cristianismo sem impedimentos e barreiras, sem as perseguições e dificuldades não é Cristianismo. Muitos dos pastores aprisionados pelos comunistas da antiga União Soviética, anos depois quando foram soltos, se maravilharam diante do crescimento da igreja – enquanto estiveram encarcerados  – em meio à crueldade imposta pelo maldito regime. Os muros e cortinas de ferro do ateísmo não puderam impedir que as raízes de um verdadeiro Cristianismo os transpusessem e dessem frutos em quantidade e qualidade.

Frutificar ou morrer

O mundo lá fora permanece em turbulência. Vidas jovens sem alvo, em crise vocacional, famílias destruídas ou em risco de desintegrar-se. Essa gente espera ouvir a Boa Notícia. Mas vidas estéreis não farão nenhuma diferença. O mundo e o Diabo estão muito satisfeitos com aqueles crentes que todos os domingos religiosamente apanham suas Bíblias e rumam para a igreja impávidos. Leem, cantam, glorificam. Uns até pulam e gritam, mas na segunda-feira retomam a vida como se não tivessem ouvido nenhuma mensagem da Palavra. Suas Bíblias voltam ao armário para dali a sete dias serem retomadas na rotina infame.

O exemplo da vida de José precisa ser revivido pela igreja. Não bastassem os inimigos externos, o Cristianismo vai sendo prostituído pela autoestima e prosperidade da Nova Era. É a adequação ao mundo e seus atrativos. É o liberalismo justificadamente imoral, ou imoralmente justificado, que tem transformado igrejas vivas em um exército de moribundos espirituais. São tantas as razões do declínio, mas todas na mesma base: Desligamento da Fonte, separação da Videira Verdadeira…

Os milhões de evangélicos de hoje, ironicamente num tempo em que o avanço tecnológico proporciona todas as possibilidades de comunicação, podem não chegar a fazer pelo Reino o mínimo que os 120 crentes do cenáculo fizeram no Poder do Espírito Santo. Eles evangelizaram o mundo do seu tempo. “Cada crente ganhando uma alma por ano” é um raciocínio perfeitamente possível hoje. Mas os poucos ‘Josés’ não poderão agir mais rápido.

É aí que a história de José desafia e coloca nossa negligência, incompetência a quilômetros da diferença que ele fazia. José incomoda porque desmascara nossa fachada. É mais fácil crer que ele tenha sido alguém “mais” privilegiado do que nós porque resistiu aos apelos da vaidade, dos prazeres, das glórias humanas que tanto nos embaraçam hoje e vão adiando a nossa decisão de viver de verdade com Deus e para Deus.

Necessitamos de arrependimento, restauração, religação à Fonte de Água Viva. Fora de sintonia com a Fonte divina nossas raízes permanecerão rasteiras e os talentos enterrados na desobediência: Cristianismo estéril, sem objetivo… Sem fruto a vara é irremediavelmente cortada. Por isso, é bom começarmos produzir, cem por cem, agora!

 

José San Martín Camiña Neto
Jornalista, radialista, ministro evangélico
Josesanmartin.jor@gmail.com

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