Há Vida para sua morte

por José San Martín Camiña Neto

Quem crê em Mim, ainda que morra, viverá!…
(Jesus Cristo, em Jo. 11.25b)

Uma mensagem evangelística, proferida com unção, conhecimento e manejo dinâmico da Palavra da Verdade (II Tm 2.15), dá-nos sempre a certeza de que foi benéfica aos ouvintes descrentes. Sentimo-nos satisfeitos quando um visitante, convidado nosso, tem a oportunidade de ouvir a explanação da Palavra com graça e sabedoria. Às vezes até nos imaginamos na condição dele para testar se absorveríamos ou não o conteúdo

Entretanto, quando numa ocasião semelhante o pregador, em pleno culto público, começa a “doutrinar” o auditório tocando em temas familiares a nós e, ao nosso ver, alheios ao nosso amigo, contorcemo-nos no banco desejando nunca ter estado em tal reunião. Muitas vezes a mensagem é dura, pede mudança de atitudes, confissão de pecados, ameaça com uma “última” oportunidade e exorta fortemente, sem deixar dúvida de que está sendo dirigida a crentes. É certo que alguns pregadores usam desse expediente para compensar a limitação de sua cultura bíblica, despreparo etc, mas é certo também que Deus fala onde, quando e através de quem desejar.  E se Ele falar em pleno culto público, parecendo ignorar o caráter evangelístico da reunião, só pode haver uma explicação: Está a alertar alguém prestes a morrer ou que possa mesmo já estar morto, morno, em adiantado sono espiritual (Ef 2.1b-3; Ap 3.1b).

Não há nenhuma novidade na afirmação de que Deus deseja salvar pecadores tanto de fora como de dentro da Igreja. Aqui é oportuno lembrar que há a Igreja e a igreja. Dois grupos distintos, identificados claramente apenas pelo Senhor: A Universal Assembléia dos Santos (He 12.23), e a igreja morta, em pecado, não renascida, não convertida e “se preparando” para a volta de Jesus. Há outros nomes e símbolos diferenciando a ambas: Joio e trigo (Mt 13.25), prudente e néscia (Mt 25.2), morna e quente (Ap 3.16), etc. Sendo mais incisivos, diríamos que a igreja é composta de salvos e perdidos, vivos e mortos (I Jo 2.19; 3.10,14). A convivência cotidiana desses dois grupos, apesar de gerar muitos incômodos ao verdadeiro corpo de Cristo, às vezes passa despercebido. Uma das ocasiões em que nos damos conta dessa infeliz realidade é justamente quando nosso visitante é brindado com uma espécie de “lavagem pública da nossa roupa suja”.  Que bom se a doutrina distorcida da predestinação fosse verdade comprovável, pois dessa forma, com o joio devidamente identificado e separado por antecipação, os justos privilegiados poderiam viver com menos problemas…

Biblicamente, a vida espiritual é um caminho a ser percorrido com êxito crescente. Na opinião de Salomão, ela é como a luz da aurora que invade a escuridão progressivamente até a perfeição do dia (Pv 4.18). Oséias convida-nos a desenvolver o conhecimento de Deus (Os 6.3a). Para São Paulo, é preciso entre outras atitudes, “prosseguir para o Alvo” e servir de padrão aos fiéis, demonstrando a todos o progresso alcançado” (Fl 3.14; I Tm 4.12b,15). Correr com paciência a carreira que está à nossa frente, abandonando todo embaraço e o pecado, é a sugestão do autor da Carta aos Hebreus (He 12.1).   João destaca que a nossa plena perfeição se dará com a manifestação do Senhor (I Jo 3.2). “Pedro atingiu o clímax de sua segunda epístola ao dizer aos seus leitores que a única maneira de não extraviar-se é crescer na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo1” (II Pe 3.17-18). Resumindo, Jesus falou de um “novo nascimento” espiritual (Jo 3.3,6). Nascimento acena com a perspectiva de  progresso, crescimento, amadurecimento. A propósito, o sumo exemplo dEle denota um desenvolvimento perfeito no corpo, em sabedoria e na graça divina (Lc 2.52).

Portanto, se a Bíblia é clara ao mostrar que devemos progredir na graça e no conhecimento de Deus, a conclusão óbvia é de que todos quantos não estão salvos, dentro e fora da Igreja, pararam de se desenvolver em  Deus. Foram desligados da Videira (Jo 15.6). Como os homens gabirus2, permaneceram na estatura imperfeita dos seus delitos e pecados, ou tiveram crescidos apenas alguns membros do corpo, acabando por adquirir uma aparência desagradável à vista.

Nessa condição, igrejas inteiras ou parte delas, suas lideranças e membros vão levando a vida (ou a morte). Em condição semelhante, um grande número de pessoas está ativo em muitas igrejas. Cobram comportamento ilibado dos outros, cantam, pregam, profetizam, contribuem financeiramente, oram por enfermos, expulsam demônios e tudo o mais. O detalhe crucial é que não estão salvas. Como sepulcros caiados (Mt 23.27), se não procurarem acertar-se com Deus só lhes restará um dia ouvir a dura sentença: “Nunca vos conheci! (Mt 7.22-23). Falamos de acertar-se, no sentido de um concerto com Deus, ou seja, novo pacto, revisão de pendências, pedido de perdão e arrependimento com vistas a um novo começo, novo propósito, abandono de velhos e maus hábitos. Sim, esta é a meta: se acertar, recompor, reviver, reagir reconstruir, refazer, renascer, ressuscitar…

Desde já, para encorajar e estimular você a rejeitar o sono, a morte espiritual, gostaria de adiantar-lhe que Deus não dirige-nos o seu olhar tendo como pano de fundo nosso passado inútil, vago, negro, perdido. Não. Ele sempre nos vê projetando todo potencial que há em nós naquilo que de melhor possamos vir a ser a partir de hoje (agora!) , se nos dispusermos a despertar da negligência (Ef 5.14), tomar posição para ouvir a sua ordem (Is 60.1), clamar para receber a resposta (Jr 33.3), andar até Ele para obter descanso (Mt 11.28) e, enfim, desfrutar de todo um leque de oportunidades se assim o desejarmos (Js 24.15, Ap 22.17b).

Ninguém tem dúvida de que destruir é mais fácil que construir, descer muito mais prático que subir, e a lista se estenderia entre situações como cair ou levantar, trabalhar ou dormir, empreender ou acomodar, esforçar ou ceder… Desde a desobediência e queda do homem, o Diabo tem tido enorme sucesso em promover a opção mais fácil: matar, roubar e destruir (Jo 10.10), mentir (Jo 8.44), mudar a verdade de Deus em mentira e enganar (Gn 3.1-6; Ap 12.9), tentar (Mt 4.1-11), acusar (Ap 12.10b), mudar o certo em errado, o puro e santo em imoral e blasfemo, o justo em corrupto, a vitória em derrota,  a meta segura e certa em alvo errado. Mas, no que depende Deus, Ele nunca esteve em desvantagem.

Houve um momento quando, chegada a plenitude dos tempos, em cumprimento ao Plano Divino Através dos Séculos, nasceu o Salvador (Gl 4.4). Jesus não insistiu no fato de ser igual a Deus e, por sua própria vontade, abandonou sua Glória. Adotou a natureza de servo, tornou-se semelhante ao ser humano (Fl 2.6-8). Se fez carne, revelando a glória do Pai (Jo1.14). Ofereceu-se em sacrifício pelos pecados do mundo (Is 53.4-5). A Luz surgiu, desafiando a ordem estabelecida.

“Jesus foi claro na apresentação dos seus objetivos. Sua pregação, suas parábolas, sua reprovação à hipocrisia mostrou mais que um mero ensino: revelou quem estava no controle do Universo. Seu Evangelho entrava como um desafio não simplesmente contra a bem estabelecida tradição religiosa ou o domínio romano, como muitos pensaram, mas contra o príncipe deste mundo, Satanás (Jo 14.30; 16.11). O ato dEle pisar a cabeça da serpente (Gn 3.15), destronar o adversário, desmascarar o mentiroso e tomar-lhe as chaves da morte e do inferno (Ap 1.18) não poderia ter ocorrido de forma pacífica. Instalou-se um conflito ferrenho, vivido tanto por Ele como pelos seus seguidores. E não é de admirar que muitos não tenham compreendido seu propósito, pois estavam acostumados com um mundo de cabeça para baixo. Ao surgir o Senhor, revelando tal estado de coisas, houve veemente protesto. Um mundo acostumado ao erro e ao atraso estava sendo confrontado por um poder retificador que invertia o comando da ordem de tudo. Prenderam e mataram-nO. Depois perseguiram seus discípulos. Mas sua morte acendeu o estopim de uma explosão destinada a afugentar o inferno da terra, levando-o de volta até os seus próprios limites. Um mundo sem esperança, mergulhado no paganismo, ocultismo, culto satânico, superstição e intelectualismo. Um mundo onde a religiosidade estava na raiz das coisas mortas recebeu a oportunidade de mudar de rumo, de renascer, voltar ao caminho correto e reencontrar-se com Deus”3.

Agora, voltemos para nós mesmos e nos situemos diante dessas realidades. A qual reino pertencemos? Por quem trabalhamos? De que lado estamos? Dentro ou fora do Reino de Deus? Vivo ou morto na Igreja? Filhos ou criaturas? Renascidos, fortes ou destituídos e distantes da casa do Pai?

Mudar de atitude. Voltar ao primeiro amor. Retroceder aos hábitos prejudiciais. Colocar-se novamente nos trilhos certos. Reconstruir a casa espiritual. Parar de negar a realidade miserável. Reconhecer o pecado de não amar a Deus e aos outros. Arrepender-se. Recomeçar… Somente aquele que após anos e anos de negligência na vida cristã, procurar reconduzir-se plenamente aos Caminhos de Deus saberá o preço e a recompensa devidos à decisão de “recompor-se”, descorromper-se, “desintoxicar-se” do pecado.

Provar a transformação de dentro para fora é como atravessar todo um continente a pé. Nessa tarefa é impossível persistir sem a ajuda do Espírito Santo, a leitura da Palavra, a oração, os jejuns e uma profunda análise do nosso interior em busca do reconhecimento de possíveis resquícios de orgulho, pecados e toda poluição semeada pelo inimigo. “Sonda-me, ó Deus” (Sl 139.23-24), pois o meu “coração é enganoso” (Jr 17.9), deve ser uma oração constante e sincera.

O filho pródigo abandonou tudo quanto possuía, das riquezas tangíveis aos títulos abstratos (Lc 15.11ss). Apostatou-se, desprezando sua posição privilegiada. Jogou fora a nobreza, desgarrando-se na nova condição de suposta liberdade. Desfrutou, por certo período, de intenso prazer e satisfação carnal na companhia de amigos, mulheres, bebidas em muitas orgias, conferindo o fato de que – passageira ou não – há alegria no mundo; muitas formas de se alegrar. É sempre assim. De épocas em épocas percebe-se a renovação das modas, músicas, símbolos, adágios, filmes, astros e toda uma gama de artigos que servem como combustível aos sorrisos, vaidades e todos os sinônimos da felicidade que tem de parecer permanentemente diferente, interessante, estimulante, ou simplesmente reciclada e apresentada com roupagem nova em outros momentos.

Mas, como o mundo passa com suas concupiscências (I Jo 2.17), a boa vida do pródigo um dia passou. Foi cada vez mais se afundando na miséria. Levando-se em consideração a origem de sua classe, descera à condição mais baixa que pudesse existir. O salário do pecado é morte (Rm 6.23) e o caminho dele apontava para esse cruel destino. Crise de fome na terra como horizonte, “pastor”de porcos como trabalho, abandono e solidão da “tchurma” como companhia. Era o preço de “estar fora”, longe, morto, só…

Não nos consta que o jovem aventureiro, no fundo do poço, tenha recebido uma visão celestial, uma energia sobrenatural, a visita de um profeta ou qualquer outro tipo de estímulo externo, gerador de entusiasmo, para que tomasse atitude de reagir. “Caiu em si”. E não parou aí. Reconheceu sua miséria. Sua auto-análise fê-lo perceber que estava situado abaixo da categoria dos seus próprios ex-empregados. Estava em pecado. Tinha Feito tudo errado. Não culpou a Deus. Não culpou a outrem. Suas ações demonstraram a disposição de recomeçar do nada. Dispunha-se a ser um Zé-ninguém  até o fim de seus dias, desde que ao lado do Pai. Não negou o seu passado. Apenas desejou viver o presente e o futuro. Deu o primeiro passo à travessia do continente!

O cair é do homem, e Deus se dispõe a ajudar todo aquele que quiser levantar-se. Se algum dia nos deslocamos de sob as asas do Altíssimo é seu desejo amoroso reagregar-nos (Sl 91.1; Mt 23.37). Uma queda nunca pode ser o fim. Pelo contrário, como seres imperfeitos, em constante busca de algo que perdemos ao sermos expulsos do paraíso, precisamos reconhecer nossa triste realidade de seres decaídos (Rm 3.23), reforçando nossa dependência do Senhor para a realização de todos os nossos anseios, do mais visível ao mais secreto. Ele pode e quer nos reerguer, estejamos fora da Igreja no sentido completo ou “dentro” da mesma fisicamente, porém há muito excluídos, mornos, mortos, cauterizados na consciência, vivendo de uma morte que não reconhecemos, nutrindo ressentimentos, fugindo do confronto de nossas imperfeições com a imperfeição daqueles de quem exigimos muito. A oportunidade está sempre posta à nossa frente enquanto tivermos a consciência da nossa existência. As conquistas do Senhor Jesus Cristo na cruz estão à nossa disposição no “agora” de que nos fala Ele, primeiramente pelo profeta Isaías (Is 49.8), depois pelo apóstolo São Paulo (II Co 6.2), numa clara demonstração de Sua boa vontade em reorientar a todos quantos erraram o alvo.

“Certa vez, Jesus apresentou a parábola de uma figueira improdutiva, cujo dono ficava desapontado porque nunca achava fruto nela (Lc 13.6-9). A figueira não tinha um “passado recomendável”; sua história estava cheia de fracassos, derrotas e improdutividade. Na opinião da turma, não tinha mais direito de estar ocupando lugar no pomar; deveria ser cortada e jogada no fogo. Isso seria até justo, mas a misericórdia de Deus, personificada em Jesus, clama: ‘Deixe a figueira mais este ano. Eu vou cavar em volta dela e pôr bastante adubo, e no ano que vem ela dará frutos’.

É isso que me impressiona em Jesus e comove meu coração enchendo-me de gratidão. Ele sempre pensa nas possibilidades futuras e não tanto no passado. Trata você de acordo com o que você pode chegar a ser e não de acordo com o que você foi. Jesus nos aceita do jeito que somos e nos vê do jeito que Ele sabe que seremos um dia4”. “A Bíblia está sempre nos acenando com a possibilidade de conhecermos um Deus que tem prazer em ter comunhão conosco, e pode tocar-nos com seu poder transformador. Podemos experimentar sua bondade nos momentos mais difíceis”5, inclusive a morte em nossos delitos e pecados. Ele jamais nos lançará fora (Jo 6.37), nunca rejeitará um coração sincero e contrito (Sl 51.17).

Jesus acredita em você, lança seu passado no fundo do mar e lhe mostra o azul límpido de um céu sem limites, cheio de possibilidades futuras. Isso é o que realmente conta e a partir daí tudo poder ser diferente. Nada, a não ser sua própria inércia, seu desejo de fuga, sua indiferença, pode impedir você de renascer, negando a verdade de que há uma vida à sua disposição desafiando seu estado de morte espiritual. Nada, a não ser seus próprios complexos e preconceitos, poderá impedir você de superar o caráter banal e passageiro desta vida. Sua existência pode ser extraordinária e fazer diferença na História. “Davi foi o maior de todos os reis dos hebreus exatamente porque ele nunca desistiu. Caiu – mas se levantou de novo. Sentiu-se desanimado – mas prosseguiu. Ele compreendia o que era desejar abandonar tudo – mas persistiu”6. O pródigo não era nenhum super-homem e superou a si mesmo. Elias era um sujeito como eu e você, e sua oração liberava ou retinha a chuva. Abraão, Moisés, José, Daniel, Gideão, Paulo, João, Timóteo etc, etc. Apenas homens. Comuns. Falhos. Mortais. Porém, mais que  vencedores. Como? Por Jesus. Por que? Porque confiavam em Jesus! Porque conheciam e obedeciam a Jesus. Porque escolheram viver com Jesus e para Jesus. Porque mesmo envolvidos na miserável realidade terrena, apreenderam o conceito de vida acima do sol. Tinham a ambição além deste tabernáculo. Para eles, o viver era Jesus e o morrer era lucro.

Jesus era a vida deles. E Jesus pode ser a sua vida. Você pode vencer-se. Creia na Vida. Saia da morte!

*José San Martín Caminã Neto – Membro A.D Cidade Alta – Cuiabá – MT,  Bel.Comunicação Social (Rádio&TV – UFMT)
Dedico a Deus o que escrevi

Notas:

(1) Dr. J.Grant Howard, O Líder Eficaz, Mundo Cristão, pg 67;

(2) Gabiru:Designaçao de certa anomalia física causada por subnutrução; (3) Jack W. Hayford, Orar é Invadir o Impossível, Vida, capítulo 1.6;

(4) A.Bullón, Revista Mocidade, 1988, Casa Publicadora Brasileira;

(5) Larry Crabb, De dentro para fora, Betânia;

(6) David Wilkerson, Depois de ACruz e o Punhal, Vida, pg 183.

 

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