Nepotismo e família

por José San Martín Camiña Neto

Além dos atos de nepotismo está uma realidade divina: o amor que une os membros da família. Também nos leva ao Pai cego de amor, que corre em direção ao pródigo

A raiz do nepotismo* está ligada diretamente aos laços de afeto entre entes queridos que desejam o bem dos filhos, sobrinhos, esposas, esposos e amigos. Por trás dos argumentos dos parlamentares, juízes, governantes e outros que defendem o emprego de parentes está uma tentativa de dizer: “se posso ajudar alguém, por que não aqueles a quem amo?”. O nepotismo é ruim por excluir pessoas que se esforçaram para passar num concurso. É ruim por ser antidemocrático. É ruim por agravar desigualdades sociais. Isso é indiscutível. Mas não podemos deixar de lembrar o que o origina: os laços familiares. O que eu quero dizer é que família é símbolo de sociedade sadia. Qualquer pai ou mãe fará tudo por seus filhos. Uns, que chegam a um degrau importante na sociedade, erram em beneficiar os seus, e acabam sendo alvo da legislação antinepotismo. Paciência. É uma tentação como qualquer outra: tentar satisfazer um desejo legítimo, porém da forma inadequada. E, como toda tentação, tem de ser resistida e vencida.

A Bíblia, como Carta de Deus à humanidade decaída, conta histórias de seres humanos como nós. Fala de nepotismo. Por exemplo, fala da complacência do sacerdote Eli com os filhos malignos, a conivência de Davi com Absalão desobediente, da astúcia de Rebeca para favorecer Jacó a Esaú, a matança praticada por Levi e Simeão contra os que violentaram sua irmã Diná, a dor de Maria diante do Salvador massacrado e crucificado como maldito. O desespero de pais devido ao sofrimento dos filhos acometidos por demônios e doenças: Jairo, a siro-fenícia, o centurião romano, a viúva de Naim. A tentativa incoerente da mãe dos filhos de Zebedeu em garantir um lugar de destaque para eles no céu! A dor de Deus ao ouvir seu Filho Amado clamar: “Por que me desamparaste?…”

A Bíblia fala, acima de tudo, de um Pai amoroso que espera o filho pródigo e indigno aos olhos dos outros. Essa é a mensagem especial deixada pela parábola do gastador e boêmio. E há o detalhe da corrida do pai ao encontro do amado filho numa cultura em que isso era algo inconveniente a um homem do seu status. Antes, viu-o de longe. Todos os dias, a saudade levava-o a olhar para o horizonte na esperança de ver o jovem a caminho de casa. Aquele dia a visão de alguém cambaleante avivou seu coração. Apesar da aparência de um mendigo, pôde reconhecer aqueles passos, o jeito de mexer os braços, levantar a cabeça. Era ele! O perdido que foi achado, o morto que ressuscitou! Abraço demorado. Lágrimas ao pescoço. Nada de racionalizações sobre erros passados. Nada de “jogar na cara”. Nada de cobranças, ‘pitos’ antecedendo a restauração ao ambiente protegido do lar.

A Bíblia, como Carta de Deus à humanidade decaída, conta histórias de seres humanos como nós. Fala de nepotismo. Por exemplo, fala da complacência do sacerdote Eli com os filhos malignos, a conivência de Davi com Absalão desobediente, da astúcia de Rebeca para favorecer Jacó a Esaú, o massacre praticado por Levi e Simeão contra os que violentaram sua irmã Diná, a dor de Maria, diante do Salvador massacrado e crucificado como maldito

Deus, o Pai amoroso desconhecido dos muçulmanos. O Deus carrasco dos santarrões e legalistas na igreja, o perdoador dos pecadores ansiosos por atirar a primeira pedra, sem notar que são tão pecadores quanto o infrator exposto ao ridículo. Deus-homem que levou sobre Si nossas dores, enfermidades, preocupações e ansiedades. Deus-conosco que teve grande compaixão das multidões dos que andavam desgarrados como ovelhas sem pastor. Pai incomparável, pois ninguém tem maior amor do que este: de dar a sua vida em favor dos seus amigos. Se Ele pudesse nos colocar nas melhores posições Ele faria. Mas a dureza do coração humano em achar que pode ser independente dos Seus cuidados, e do Seu amor, leva muitos à perdição e à morte. Rejeitam a salvação, os “cem vezes tanto nesta vida e depois a vida eterna” por migalhas do mundo que está no maligno.

Não à toa, ao longo dos séculos e nas páginas da Bíblia, o Pai cheio de amor está a chamar: “Filho meu, dá-me o teu coração”. “Quis ajuntá-los como a galinha ajunta os seus pintainhos”, “voltem para mim e sereis salvos”, “Estou à porta e bato”, “Não endureçais o vosso coração”. Para que viver sofrendo e sem rumo, se fora dos caminhos do Pai não há certeza alguma do amanhã? Para que persistir na desesperança que surge das muitas “alegrias” da prostituição, da corrupção, da fama, do sucesso, da independência frágil, da obstinação inútil no momento da dor?

Esta é uma mensagem para você, filho distante do Pai. Você dentro ou fora da igreja, que não tem o Senhor entronizado em seu coração. Não queira deixar de ouvir o toque da trombeta que anunciará o arrebatamento dos salvos para morar eternamente com o Pai celeste. Nada pode superar esse objetivo por meio de uma vida vivida na direção, na vontade dEle. Levante-se, reconheça sua incapacidade de vencer sozinho. Chega das bolotas dos porcos. Há um Deus esperando diuturnamente sua volta à casa paternal. “Se hoje ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração. Eis, agora, o dia aceitável, eis, agora, o dia da salvação”.

* Nepotismo: 1. política adotada por certos papas que consistia em favorecer sistematicamente suas famílias. 2. Distribuição de cargos públicos entre parentes ou amigos. 3. Favoritismo, proteção escandalosa.
Ilustração do artigo: “O filho pródigo” de Rembrandt

José San Martín Camiña Neto é ministro evangélico. Recebeu os diplomas de jornalista e radialista pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). É responsável pelo Departamento de Jornalismo da Rádio Educativa Evangélica Nazareno FM em Cuiabá-MT

Contato: josesanmartin.jor@gmail.com
Dedico a Deus o que escrevi!

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